FOCO NOS PONTOS CRÍTICOS
A hostilidade vem sendo alimentada pela retórica de “culpar a China”
Publicado:
2020-06-06
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A retórica do “culpe a China” e as antigas táticas de medo do “perigo amarelo” estão gerando hostilidade em relação à China e aos chineses, segundo Jenny Clegg, vice-presidente da Sociedade para o Entendimento Anglo‑Chinês, que tem apelado aos países para que estabeleçam canais de comunicação e superem a desconfiança mútua.
Clegg afirmou: “Tanto a mídia tradicional quanto as redes sociais vêm alimentando uma narrativa de ‘culpar a China’, muitas vezes difundindo notícias falsas ou verdades parciais, o que vem gerando hostilidade em relação à China e aos chineses, acompanhada por um aumento alarmante nos crimes de ódio.”
Segundo a Conservative Friends of the Chinese, uma organização que representa as comunidades chinesas no Reino Unido, houve um número recorde de incidentes de natureza racialmente agravada em todo o país, incluindo quase 300 delitos classificados como crimes de ódio racial contra as comunidades chinesas britânicas nos primeiros três meses de 2020. Ao longo de todo o ano de 2019, foram registrados 375 desses delitos.
Clegg afirmou que o estopim de grande parte dos problemas ocorreu quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, insistiu em chamar o novo coronavírus de “vírus da China”.
Ela disse: “Não chamamos a AIDS de doença americana, nem o Ebola de doença africana. É fácil perceber que Trump procura um bode expiatório para desviar a atenção de sua própria incompetência indizível, mas está racializando e politizando a agenda aqui de maneira muito perigosa, tentando apresentar a China como o novo inimigo.”
Clegg afirmou que a retórica de “culpar a China” vem sendo repetida na mídia todos os dias. Ela citou o exemplo de como a imprensa ocidental retratou o lockdown de Wuhan como um “ato draconiano” e falou sobre os chineses vivendo “numa espécie de semi‑gulag”. Além disso, destacou como a mídia ocidental acusou a China de mentir quanto ao número de casos e de óbitos e de ter ocultado informações sobre o vírus desde o início. Segundo ela, a imprensa ocidental chega até a apresentar a oferta de assistência médica da China a outros países como uma espécie de “tomada global dissimulada”.
Clegg, que nutre especial interesse pela China e pela região do Pacífico e é autor do livro A Estratégia Global da China: Rumo a um Mundo Multipolar, afirmou que o Ocidente possui uma longa história de “sustos do perigo amarelo”, que remonta aos primeiros anos da imigração em massa, na década de 1860. Esses sustos alimentam o temor de que a China esteja prestes a inundar o mundo.
“Assim, as reportagens da mídia ressoam com esses medos profundamente arraigados, transmitindo uma mensagem sutil de que a China representa um perigo para o mundo. A China é mantida à distância, e há uma falta geral de interação com os chineses e com a sociedade chinesa”, disse ela.
Clegg afirmou que a China, na verdade, merece reconhecimento por ter agido com firmeza e por ter realizado “um trabalho notável na contenção do vírus, com menos de 5.000 mortes”.
“Sim, houve erros no início — não vamos esquecer que a China foi a primeira a enfrentar esse vírus —, mas hoje sabemos o quão difícil é detectá‑lo e realizar testes”, disse Clegg. “O que o governo fez foi seguir rigorosamente os procedimentos padrão de saúde pública para testar, rastrear e isolar. O lockdown foi realmente um lockdown, independentemente dos danos de curto prazo à economia.”
A COVID-19, a doença causada pelo novo coronavírus, atingiu mais de 210 países e regiões, infectou cerca de 6,5 milhões de pessoas e ceifou quase 390 mil vidas.
Clegg afirmou que o vírus não pode ser derrotado apenas com a atuação dos governos, o que torna a cooperação transfronteiriça de extrema importância.
“Precisamos de diálogo; precisamos derrubar a desconfiança e o descrédito. A segurança não se resume ao domínio militar; trata-se de cooperação e solidariedade”, afirmou ela. “O inimigo não é a China; é o vírus. As armas não são mísseis nucleares, mas a solidariedade e a cooperação internacionais. A segurança é um interesse mundial compartilhado.”
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